saint-malo
#97
O gosto do mar tem consistência gosmenta, salgada e viva. Testei ostra novamente para saber que não, muito obrigado, não me convém, vou passar desta vez. Inteiramente nublada e esporadicamente chuvosa, a Bretanha me recepcionou com a sua típica previsão regional. Em contexto de viagem com demais estudantes internacionais, vi-me num itinerário idealmente favorável. Passagens, estadias, refeições, atrações: tudo previamente reservado e planejado. Caberia a mim, tão somente, manter-me a par do fascínio pelo novo, com a energia social em dia, com a chance de me manter curioso e explorador. Guardo com carinho a decisão a qual tive de passear, sozinho e sob o silêncio do mar, ao longo de todo o perímetro das muralhas de Saint-Malo. Estava cheiroso, de bucho cheio, com roupa fresca e mente renovada.
Conhecer o monte Saint-Michel foi como percorrer séculos e séculos de histórias religiosas. É verdade que o melhor deste ponto turístico é justamente a diferença de altura entre o ponto de partida e o de chegada. Lá do topo, observa-se areias molhadas, movediças ou alagadiças. Frio que corta o vento, vê-se turistas saindo e chegando como se saudassem um momento assez grandioso para o nosso conceito de humanidade total. A verdade é que não há muito o que fazer por lá, além de absorver o passado e celebrar o presente.
Findo sempre comprando mais postais do que julgo poder escrever. É que caio na falácia das promoções acumuladas. Compre mais, pague menos! Ficam acumulados em cima de minha mesa de estudos e trabalho, ou se destinam, alguns, a serem amassados e esquecidos dentro de minhas bolsas. Quando a tinta sob eles deposito, despejo comentários, reflexões e palavras saudosistas de lugares que já não mais ao cenário original do cartão correspondem. A data não é a mesma; eu não sou o mesmo, ninguém é mais o mesmo. E mesmo assim, decido redigir. Talvez por teimosia, talvez por modéstia à parte: sou invicto a crer que todos eles atingirão, algum dia, os seus respectivos destinatários. Por mais que se percam ou se mofem, sejam engavetados, rasgados, afogados, queimados ou doados, eles continuariam a se constituir como uma prova viva, extensão minha e de quem o recebeu, de que a vida por ali pulsou. E a extensão do vínculo, então, permaneceu.











