belfast
#103
Nenhum legado será tão mais acima pronunciado quanto a fantasia travestida de reino em Belfast, capital da Irlanda do Norte. Monarquia mais que unida, é comum encontrar cidadãos que mais compactuam com as suas origens irlandesas; do que as propriamente britânicas. Diz-me, urbe encantadora, por que fostes assez imersiva com tantas figuras draconianas espalhadas através de museus, confinadas nas decorações de fachadas e em meio às ruas paralelas, imaginadas até mesmo dentro de mim, na minha mera mente perambulante. Em clima natalino e festivo de inverno, percebi que o turismo não possui hora, mas, sim, vontade de acontecer. E no decorrer das falésias mais ao noroeste do país, encontrei o espectro brutal e singelo da natureza: formações vivas, formações rochosas únicas, tão singulares quanto a minha designada vida vivida. Como faíscas cintilantes, brilhavam prestes a inaugurar um paiol aceso a céu aberto.
Tantas guerras por um único trono! Antes mesmo que as casas pudessem entravar conflitos, eu me perguntaria como proceder com gritos de guerra durante tempos tão impressivos. É que choveu e fez frio de jeito descomunal. Apesar disso, eu me percebia forasteiro. Circulava sempre no sentido contrário e me confundia ao atravessar a rua, pois captava que todos seguiam uma outra direção de manobra. Cinzenta. Nublada. Vitrificada. Vitoriana. E de sotaque forte. São precisas as horas de atenção e de calmaria, com o intuito de compreender a entonação vocal e a disparidade de fonemas dos falantes ingleses desta fração mundial.
Eu adorei o mercado de São George, uma vez que postais, cartões e lembrancinhas de viagem foram adquiridos com sucesso. Adoro o frevo local, a presença de pequenos comerciantes da terra. Mais uma vez, esforcei-me para andar como quem redescobre a existência sob o próprio passo. Cadência rápida, quedei-me a pensar. Que o universo tende a me presentear com nada ou tudo; às vezes, o regalo é um intermédio entre estes dois pontos de referência. Enxergo os meus resquícios de aventura, entre fotos, vídeos e áudios registrados digitalmente, e reconheço o poder supremo do tempo em gerir quem eu cronologicamente sou. Viajar é converter distância em tempo físico. Longe de quem eu portanto sou próximo, sinto falta.











