bled
#99
Algumas paisagens conseguem ser bem mais do que banais telas de fundo de aparelhos eletrônicos. É preciso sentir o vento, dançar na chuva e espremer o olho para observar o que se tem logo ali adiante, apesar do esmero e do substancial. Um dia em Bled, e toda uma enorme existência ao redor deste lago! Uns dizem que é conto de fadas; outros, que vem do além. Demais pronunciam a criação divina de algum ser omnipresente; já eu, mera esmeralda, reencontrei a minha própria companhia depois de tempos sem viajar. Para mim, aquilo já seria uma intergaláctica aventura real.
Perpassar as plataformas as quais circundam o percurso fluvial de Vintgar é uma ilustre expedição ao turismo local até que assez selvagem e convivial! Escuta-se o barulho do curso da água, a qual bate contra a pedra, que de tanto bater, uma hora fura. E se furou, eu não vi — contudo escutei, então prosa para o próximo calendário ser deve. Patinhos, muitos patinhos ao redor de Bled. E enquanto eu andava, a chuva me acompanhava. Em determinado momento, não me importava mais que os meus sapatinhos estivessem encharcados. A vida ainda seguiria para a frente, ou melhor, para trás. Pois ao chegar em nove treze avos da trilha executada em hipérbole, um sítio de construção impediria a circulação de qualquer pedestre sonhador. Como saldo, retornar todo o trajeto uma vez executado foi a única solução aparente. Eu já não sabia para qual caminho de Compostela estaria me dedicando, porém, em algum momento, em algum lugar, aquilo se assemelharia a tal feitio.
Por conseguinte, a chance de realizar caminhadas no meio do mato, feito bicho descobridor da selva, permitia-me vistas que se apresentavam lindas, fosse encarando as oblíquas linhas de terras montanhosas, fosse o potencial da natureza estarrecido, ao divulgar terrenos louvavelmente belos. Coragem, para passar pelas portelas e fechá-las atrás de mim, e me manter andarilho rumo ao próximo destino desconhecido. Em boa parte do tempo, algumas músicas poderiam compor a trilha sonora da minha vida (e fizeram!): não fosse o fato, tão somente, de que o meu par de fones de ouvidos quebraria logo então. Dali em diante, eu entenderia o silêncio como um convite à sinfonia que existe dentro de mim. Transitoriamente em descompasso e desarranjo musical, interinamente em consistência com o mundo externo.











