atlanta
#107
Uma intergaláctica aventura cosmética compôs as minhas três exatas semanas mais ao nordeste de Atlanta. O endereço do alojamento, em Tucker, não correspondia a todas as minhas andanças diárias pelo centro comercial de Lilburn, onde me deleitava ao longo de delongadas horas entre os corredores do meu supermercado favorito, além de frequentar, desde muito cedo na manhã, a sala local de musculação. Guardo memórias duma lavanderia pública, e de duas redes de brechó onde bastante garimpar pude. E as lojinhas de varejo e bugigangas, responsáveis por tantas cangalhadas que se converteram em quilos despachados. Passava os dias em Stone Mountain, a desvencilhar azos industriais através de tanto espírito latino. Aquela tríade era bem visitada pela minha singela alma humana.
Senti realmente o que compusera um ofício onde diversas línguas seriam faladas. Para cada uma delas, uma versão de mim se sobressairia. E enquanto regressava para casa, um pouco antes do entardecer, questionava-me acerca de meu preenchimento existencial. Gente adulta, bem adulterada, cheia de ismos e cataclismos. Já começara a reconhecer os rostos matinais dos lugares por onde perpassava. Na fábrica, assimilava os padrões que se repetiam a cada hora exata da jornada. Para efeito deste mundo, eu estava imerso numa rotina, por mais que efêmera. Mesmo assim, significativa. Em contrapartida, os últimos dias foram de pura astenia e lassidão. Com poucas horas antes de embarcar no voo o qual me traria de volta ao Brasil, encontrei-me numa volúvel operação com o fito de concluir a organização de minhas bagagens. Mais uma vez atestaria: pernoitar entre as nuvens é doloroso; para o corpo, para a mente, para o sopro da vida.
Em Atlanta, tive a chance de visitar o museu da bebida gaseificada mais estimada mundialmente; explorei o aquário maior do mundo, ao admirar uma enorme parede vitral que apresentava como tela quente, e o centro de direitos civis e humanos, onde os obscuros passados e presentes maléficos se fazem expostos. Reconheço que este período me lançou em perspectivas até que não tanto antagônicas: de ampla solitude, de máximo contato social. Às vezes, não seria tampouco a língua portuguesa quem eu recrutaria de primeira. Reaprendi o esmero em rituais presenciais de trabalho, quando o outro se faz presente, vivo, em carne e osso.











